quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Algumas teorias sobre os gêneros no século XX

            No século XX surgem várias teorias sobre os gêneros  literários.  Algumas  retomam  conceitos anteriores,  adaptando-os  ao  novo  momento histórico. As correntes mais formalistas entendem que o texto literário (conto, crônica, poema, romance)articula  determinados  elementos  formais  que  o inserem  em  um  determinado  gênero.  Assim,  os gêneros são macroestruturas e os textos realizam alguns  elementos  dessas  estruturas. O  autor,  na realidade,  não  cria  algo  inteiramente  novo,  mas combina  determinadas  funções,  elementos, organizando-os  formal mente  num  texto  que, dependendo de suas características, pertence a umgênero  específico.  Nessa  linha,  os  gêneros  são vistos mais  como  uma  realidade  formal  que  uma forma de um conteúdo, visto que nesta o criador de um  texto  produz  algo  original  e  singular.  Na concepção  formalista, o escritor é um operador à proporção  em  que  capta  e  seleciona  alguns aspectos  formais  do  sistema  literário  que  existe antes dele para confeccionar o seu texto. Esse é o resultado de combinações de formas já existentes.

Para  Roman  Jakobson,  teórico  russo,  os gêneros estão associados às funções da linguagem. Para  ele,  o  ato  comunicativo  (oral  ou  escrito)  se constitui a partir de uma inter-relação entre emissor e  destinatário.  Dependendo  do  objetivo  da comunicação,  predominará  uma  dada  função. As funções da linguagem, segundo Jakobson, são seis. Função Referencial é aquela em que prevalece o referencial, ou seja, o extra-artístico (o mundo e seus momentos). O  emissor  do  texto  enfoca  de modomais  objetivo  aspectos  do mundo  real. A Função Apelativa ocorre quando o falante, o emissor, centra o  texto  no  receptor  da  mensagem.  A Função Expressiva demonstra  as  impressões  bastante subjetivas  do  emissor.  Ocorre  a  Função Metalinguística quando  o  emissor  fala  sobre   a própria linguagem.  A Função Fática visa a testar se a  comunicação  entre  emissor  e  receptor  está  se efetuando. E a Função Poética é aquela em que o emissor se utiliza dos aspectos sonoros, visuais e formais das palavras para maximizar a comunicação.Essa função predomina nos textos literári os em que os  aspectos  estruturais  da  linguagem  são  muito relevantes. Obviamente, diz o teórico, que num ato comunicativo  podem  estar  presentes  simulta-neamente  todas  as  funções,  mas,  geralmente,dependendo  das  intenções  do  emissor,  há  o predomínio de uma delas.

Os Gêneros Literários na História

         A linguagem, a ciência, a política e as artes,ou seja, o universo das representações, são meios que  permitem  ao  homem  interpretar  e  explicar  o mundo  em  que  está  inserido  e  nele  interferir. As manifestações culturais e, entre estas, as artísticas, remontam há séculos na história do homem. Dentro do vasto campo de produção artística elaborado pelo homem, a Literatura e sua formalização através dos gêneros literários será nosso objeto de estudo. Para tal  estudo,  teremos  que  retroceder  no  tempo, reportando-nos à Antiguidade Greco-latina, período em  que  ocorre  significativa  teorização  sobre  os gêneros literários, pertinente, sob muitos aspectos,
até o presente momento. Platão (428-347 a.C), no livro III da República deixou-nos  a  primeira  referência,  no  pensamento ocidental, aos gêneros literários.          
            Para Platão, toda manifestação artística é mimética, ou seja, imita a realidade. Porém, essa imitação é de terceiro grau,visto que o filósofo, embasado em uma orientação espiritualista,  crê  que  a  verdadeira  essência  das coisas, seres e fatos existe num primeiro plano mais elevado moralmente, que seria o mundo ideal. Num segundo  plano,  ocorreria  o  mundo  dos  homens(sócio-histórico),  que  apenas  imitaria  o  primeiro plano. E, por último, o plano artístico, mais afastado,imitaria o segundo plano, constituindo-se, assim, na imitação da imitação, reproduzindo somente o que
há  de  superficial  no  mundo  dos  homens.  A classificação dos gêneros em Platão é triádica e se realiza sobre o modo enunciativo, ou seja, pauta-se sobre quem apresenta o universo narrado. Assim sendo, na poesia ditirâmbica impera a voz do poeta;  na  tragédia  e  comédia  predomina  a  voz  das personagens,  ocultando-se  a  voz  do  autor  e  na epopeia ocorre um misto, englobando as vozes do poeta e das suas criações.
            Para  Aristóteles  (384-322  a.C),  a  base  de todos  os  gêneros,  também,  fundamenta-se  na imitação.  As  manifestações  artísticas  imitam  as ações,  os  caracteres  e  as  paixões  dos  homens.
            Porém,  diferentemente  de Platão, Aristóteles  não desvaloriza a arte como imitação de terceira ordem,mas  a  vê  como  algo  que  apreende  o  geral  e  o universal  presente  nos  seres  e  nos  eventos particulares, contribuindo para a edificação moral do homem. O  filósofo grego classifica os gêneros de acordo  com  os  fatores  formais  e  conteudísticos específicos  de  cada  um.   A  tragédia  e  a  epopéia imitam os homens melhores do que realmente são (de mais elevada psique) a partir de uma linguagem
nobre, formal, erudita. Já a comédia, utilizando-se de uma linguagem licenciosa, imita o homem inferior e o  risível  da  condição  humana.  Notamos  que  em Aristóteles  não  ocorre  uma  divisão  triádica  dos gêneros literários.
            Horácio  (65  a.C  -  8  d.C),  teorizador  latino,recupera,  sobretudo  com  sua  Ars  Poética,  o pensamento  de  Aristóteles,  influenciando  a concepção de gênero imperante na Idade Média, no Renascimento  e  no  período  Neoclássico.  A  sua
teoria sobre os gêneros é normativa, entendendo-os como entidades autônomas e  imutáveis. As obras clássicas  da  cultura  grego-latina  (tragédias, comédias,  epopeias)  passam  a  se  constituir  em paradigmas a serem  imitados pelos autores. Para
Horácio,  segundo  a  tradição  aristotélica,  há  uma hierarquia entre os gêneros. Os gêneros maiores (epopeia, tragédia) representam um universo em que transitam personagens  de  mais  elevado  estrato social  e  os  gêneros  menores  (comédia,  farsa)
veiculam  personagens  e  situações  oriundas  de estratos sociais mais baixos. Para Horácio, a arte devia unir o útil ao agradável, objetivando ensinar,deleitando.
            Em 1690 houve a  famosa querela entre os antigos e os novos, pois muitos teóricos e escritores não aceitavam mais as artes poéticas baseadas em Horácio, visto que havia toda uma produção artística (o romance, a  tragicomédia, a pastoral dramática) que  não  se  encaixava  na  teorização  tradicional, respaldada  em  Aristóteles.    Sentiu-se  naquele momento, que o homem havia mudado e, com essa
mudança, nasceram outras formas do artístico que precisavam de uma nova interpretação.
            Somente a partir do século XVI é que o gênero lírico  (poesia)  passa  a  receber  uma  teorização específica e aí se retoma a classificação platônica do ato enunciativo. Na representação dramática não ocorre a intervenção do autor; na lírica, as reflexões
do poeta se apresentam diretamente por ele mesmo e, na épica, ocorre um misto, ora falando o autor, ora as personagens introduzidas por ele.
            Em meados do século XVIII, com o início do Romantismo  alemão,  a  teorização  prescritiva  e normativa  passa  a  ser  questionada  em  prol  da
liberdade de criação e da hibridação dos gêneros. O movimento  romântico,  triunfante  no  século  XIX, valoriza a criatividade  individual, a genialidade do artista  e  o  transbordar  da  expressão  interior, incompatíveis com a rigidez clássica (horaciana) que vê  na  imitação  dos  clássicos  o  único  caminho possível para a arte. Friedrich Schlegel, romântico alemão, distingue a lírica como uma produção em que predomina o caráter subjetivo (a vida interior do poeta), a épica como voltada para o mundo objetivo,
o  exterior,  e  o  drama  seria  um  misto  entre objetividade e subjetividade.
            No Romantismo, condena-se a imutabilidade dos gêneros literários, que passam a ser vistos como produções  socioculturais  modificáveis  em  decorrência  das  mudanças  históricas  que  ocorrem  na realidade social. Além dessas mudanças, há também a  vontade  do  artista,  que  determina  de  modo substantivo  a  mudança  nos  gêneros  literários.
            Dentro dessa visão histórica da arte, alguns teóricos românticos classificam a lírica como uma forma que representa o tempo presente; a épica, o passado e no drama ocorreria uma orientação para o futuro.
            Victor Hugo, escritor francês romântico, faz a apologia da simbiose dos gêneros em seu famoso prefácio  à  peça  teatral  Cromwell (1827).  Nesse prefácio, o poeta observa que a beleza decorre da síntese  dos  contrários,  ou  seja,  do  cômico  e  do
trágico  juntos  na  mesma  manifestação  artística, surgindo, então, o drama romântico. Essa orientação do  Romantismo  pela  mistura  e  hibridismo  dos gêneros  é  concebida  por  uma  visão  de  mundo libertária que vê o poeta, o ficcionista, o dramaturgo
como  criadores  e  não  como  imitadores.  Essa concepção  da  simbiose  dos  gêneros  será largamente retoma da no século XX, sendo ampliada.
            O  século  XIX,  além  do  apogeu  do Romantismo, também viu nascer e firmarem-se as teorias  materialistas  (Marxismo,  Positivismo,Evolucionismo,  Determinismo).  Dentro  de  uma orientação cientificista, alguns teóricos do fenômeno

literário passam a explicar os fatos artísticos como se eles fossem fatos naturais. Brunetire (1849-1906) explica os gêneros  literários a partir de uma ótica biologizante  e  evolucionista.  Dentro  de  uma concepção  de  seleção  natural  dos  mais  fortes, haverá  gêneros  fortes  e  gêneros  fracos.  Estes últimos seriam suplantados por aqueles, como, por exemplo, a tragédia clássica substituída pelo drama e  a  epopeia,  pelo  romance.  Brunetire  explica  a decadência e o surgimento de certos gêneros a partir da Biologia, interpretando-os como organismos vivos cujas mutações independem da vontade dos artistas ou das condições sociais em que estes últimos estão inseridos.  Despreza,  assim,  os  fatores  históricos (ascensão  de  uma  nova  classe  ao  poder,  novas necessidades do espectador e do leitor, mudanças ideológicas) que são causas exógenas ao sistema literário,  mas  que  determinam  sobremaneira  as mudanças  dentro  do  universo  das  produções literárias.

Gêneros Literários: Conceituação

Gêneros  literários  são  as  diversas modalidades de ex pressão literária, agrupadas em função das diferentes manei ras de o escritor ver e sentir o mundo. A escolha de dado gênero literário permite ao escritor passar uma certa visão de mundo (trágica, cômica, exaltativa, sentimental, satírica) a partir de uma forma específica (tragédia, comédia, epopeia, poema, paródia, etc.). Há escritores que somente se comunicam pela forma contística, outros pela tragédia e ainda outros pelo poema, visto que os gêneros literários se constituem, essencialmente, em  formas  fundamentais de o escritor  se  colocar diante da vida. Dalton Trevisan se expressa através do conto; Nelson Rodrigues prefere o drama; João Cabral de Melo Neto, o poema e Guimarães Rosa, a narrativa  longa.

sábado, 6 de setembro de 2014

A Literatura nas palavras do mestre Ariano Suassuna

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"EU NÃO POSSO ENTENDER O MUNDO SEM LITERATURA" (ARIANO SUASSUNA)

O que é Literatura?

Percebemos que a ligação entre literatura e realidade social se apresenta de modo orgânico e vital, visto que o escritor, produtor literário, enquanto ser histórico, não se desvincula de seu tempo e de seus semelhantes, escrevendo sobre a realidade da qual faz parte. O escritor recorta do real  determinados acontecimentos e situações, plasmando-os a partir da forma literária (romance, conto, novela, poema, drama, tragédia, comédia). Ocorre, portanto, uma ficcionalização da realidade, visto que esta adentra o universo das palavras, da literatura. Essa transferência da realidade para a ficção ocorre segundo a visão de mundo do escritor, ou seja, ele poderá representar a realidade sócio-histórica de diferentes maneiras. Operará uma transfiguração do real segundo sua visão da existência, que poderá se efetivar como trágica, cômica, cética, otimista, mística, realista, romântica, entre outras possibilidades.



“A literatura é um fenômeno estético. É uma arte da palavra. Não visa a informar, ensinar,
doutrinar, pregar, documentar. Acidentalmente, secundariamente, ela pode fazer isso, pode conter
história, filosofia, ciência, religião. O literário e o estético inclui precisamente o social, o histórico,
o religioso, etc., porém transformando esse material em estético”.
(Afrânio Coutinho, crítico literário brasileiro)