quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Os Gêneros Literários na História

         A linguagem, a ciência, a política e as artes,ou seja, o universo das representações, são meios que  permitem  ao  homem  interpretar  e  explicar  o mundo  em  que  está  inserido  e  nele  interferir. As manifestações culturais e, entre estas, as artísticas, remontam há séculos na história do homem. Dentro do vasto campo de produção artística elaborado pelo homem, a Literatura e sua formalização através dos gêneros literários será nosso objeto de estudo. Para tal  estudo,  teremos  que  retroceder  no  tempo, reportando-nos à Antiguidade Greco-latina, período em  que  ocorre  significativa  teorização  sobre  os gêneros literários, pertinente, sob muitos aspectos,
até o presente momento. Platão (428-347 a.C), no livro III da República deixou-nos  a  primeira  referência,  no  pensamento ocidental, aos gêneros literários.          
            Para Platão, toda manifestação artística é mimética, ou seja, imita a realidade. Porém, essa imitação é de terceiro grau,visto que o filósofo, embasado em uma orientação espiritualista,  crê  que  a  verdadeira  essência  das coisas, seres e fatos existe num primeiro plano mais elevado moralmente, que seria o mundo ideal. Num segundo  plano,  ocorreria  o  mundo  dos  homens(sócio-histórico),  que  apenas  imitaria  o  primeiro plano. E, por último, o plano artístico, mais afastado,imitaria o segundo plano, constituindo-se, assim, na imitação da imitação, reproduzindo somente o que
há  de  superficial  no  mundo  dos  homens.  A classificação dos gêneros em Platão é triádica e se realiza sobre o modo enunciativo, ou seja, pauta-se sobre quem apresenta o universo narrado. Assim sendo, na poesia ditirâmbica impera a voz do poeta;  na  tragédia  e  comédia  predomina  a  voz  das personagens,  ocultando-se  a  voz  do  autor  e  na epopeia ocorre um misto, englobando as vozes do poeta e das suas criações.
            Para  Aristóteles  (384-322  a.C),  a  base  de todos  os  gêneros,  também,  fundamenta-se  na imitação.  As  manifestações  artísticas  imitam  as ações,  os  caracteres  e  as  paixões  dos  homens.
            Porém,  diferentemente  de Platão, Aristóteles  não desvaloriza a arte como imitação de terceira ordem,mas  a  vê  como  algo  que  apreende  o  geral  e  o universal  presente  nos  seres  e  nos  eventos particulares, contribuindo para a edificação moral do homem. O  filósofo grego classifica os gêneros de acordo  com  os  fatores  formais  e  conteudísticos específicos  de  cada  um.   A  tragédia  e  a  epopéia imitam os homens melhores do que realmente são (de mais elevada psique) a partir de uma linguagem
nobre, formal, erudita. Já a comédia, utilizando-se de uma linguagem licenciosa, imita o homem inferior e o  risível  da  condição  humana.  Notamos  que  em Aristóteles  não  ocorre  uma  divisão  triádica  dos gêneros literários.
            Horácio  (65  a.C  -  8  d.C),  teorizador  latino,recupera,  sobretudo  com  sua  Ars  Poética,  o pensamento  de  Aristóteles,  influenciando  a concepção de gênero imperante na Idade Média, no Renascimento  e  no  período  Neoclássico.  A  sua
teoria sobre os gêneros é normativa, entendendo-os como entidades autônomas e  imutáveis. As obras clássicas  da  cultura  grego-latina  (tragédias, comédias,  epopeias)  passam  a  se  constituir  em paradigmas a serem  imitados pelos autores. Para
Horácio,  segundo  a  tradição  aristotélica,  há  uma hierarquia entre os gêneros. Os gêneros maiores (epopeia, tragédia) representam um universo em que transitam personagens  de  mais  elevado  estrato social  e  os  gêneros  menores  (comédia,  farsa)
veiculam  personagens  e  situações  oriundas  de estratos sociais mais baixos. Para Horácio, a arte devia unir o útil ao agradável, objetivando ensinar,deleitando.
            Em 1690 houve a  famosa querela entre os antigos e os novos, pois muitos teóricos e escritores não aceitavam mais as artes poéticas baseadas em Horácio, visto que havia toda uma produção artística (o romance, a  tragicomédia, a pastoral dramática) que  não  se  encaixava  na  teorização  tradicional, respaldada  em  Aristóteles.    Sentiu-se  naquele momento, que o homem havia mudado e, com essa
mudança, nasceram outras formas do artístico que precisavam de uma nova interpretação.
            Somente a partir do século XVI é que o gênero lírico  (poesia)  passa  a  receber  uma  teorização específica e aí se retoma a classificação platônica do ato enunciativo. Na representação dramática não ocorre a intervenção do autor; na lírica, as reflexões
do poeta se apresentam diretamente por ele mesmo e, na épica, ocorre um misto, ora falando o autor, ora as personagens introduzidas por ele.
            Em meados do século XVIII, com o início do Romantismo  alemão,  a  teorização  prescritiva  e normativa  passa  a  ser  questionada  em  prol  da
liberdade de criação e da hibridação dos gêneros. O movimento  romântico,  triunfante  no  século  XIX, valoriza a criatividade  individual, a genialidade do artista  e  o  transbordar  da  expressão  interior, incompatíveis com a rigidez clássica (horaciana) que vê  na  imitação  dos  clássicos  o  único  caminho possível para a arte. Friedrich Schlegel, romântico alemão, distingue a lírica como uma produção em que predomina o caráter subjetivo (a vida interior do poeta), a épica como voltada para o mundo objetivo,
o  exterior,  e  o  drama  seria  um  misto  entre objetividade e subjetividade.
            No Romantismo, condena-se a imutabilidade dos gêneros literários, que passam a ser vistos como produções  socioculturais  modificáveis  em  decorrência  das  mudanças  históricas  que  ocorrem  na realidade social. Além dessas mudanças, há também a  vontade  do  artista,  que  determina  de  modo substantivo  a  mudança  nos  gêneros  literários.
            Dentro dessa visão histórica da arte, alguns teóricos românticos classificam a lírica como uma forma que representa o tempo presente; a épica, o passado e no drama ocorreria uma orientação para o futuro.
            Victor Hugo, escritor francês romântico, faz a apologia da simbiose dos gêneros em seu famoso prefácio  à  peça  teatral  Cromwell (1827).  Nesse prefácio, o poeta observa que a beleza decorre da síntese  dos  contrários,  ou  seja,  do  cômico  e  do
trágico  juntos  na  mesma  manifestação  artística, surgindo, então, o drama romântico. Essa orientação do  Romantismo  pela  mistura  e  hibridismo  dos gêneros  é  concebida  por  uma  visão  de  mundo libertária que vê o poeta, o ficcionista, o dramaturgo
como  criadores  e  não  como  imitadores.  Essa concepção  da  simbiose  dos  gêneros  será largamente retoma da no século XX, sendo ampliada.
            O  século  XIX,  além  do  apogeu  do Romantismo, também viu nascer e firmarem-se as teorias  materialistas  (Marxismo,  Positivismo,Evolucionismo,  Determinismo).  Dentro  de  uma orientação cientificista, alguns teóricos do fenômeno

literário passam a explicar os fatos artísticos como se eles fossem fatos naturais. Brunetire (1849-1906) explica os gêneros  literários a partir de uma ótica biologizante  e  evolucionista.  Dentro  de  uma concepção  de  seleção  natural  dos  mais  fortes, haverá  gêneros  fortes  e  gêneros  fracos.  Estes últimos seriam suplantados por aqueles, como, por exemplo, a tragédia clássica substituída pelo drama e  a  epopeia,  pelo  romance.  Brunetire  explica  a decadência e o surgimento de certos gêneros a partir da Biologia, interpretando-os como organismos vivos cujas mutações independem da vontade dos artistas ou das condições sociais em que estes últimos estão inseridos.  Despreza,  assim,  os  fatores  históricos (ascensão  de  uma  nova  classe  ao  poder,  novas necessidades do espectador e do leitor, mudanças ideológicas) que são causas exógenas ao sistema literário,  mas  que  determinam  sobremaneira  as mudanças  dentro  do  universo  das  produções literárias.

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