A linguagem, a ciência, a
política e as artes,ou seja, o universo das representações, são meios que permitem
ao homem interpretar
e explicar o mundo
em que está
inserido e nele
interferir. As manifestações culturais e, entre estas, as artísticas, remontam
há séculos na história do homem. Dentro do vasto campo de produção artística
elaborado pelo homem, a Literatura e sua formalização através dos gêneros
literários será nosso objeto de estudo. Para tal estudo,
teremos que retroceder
no tempo, reportando-nos à
Antiguidade Greco-latina, período em
que ocorre significativa
teorização sobre os gêneros literários, pertinente, sob muitos
aspectos,
até o presente momento. Platão
(428-347 a.C),
no livro III da República deixou-nos
a primeira referência,
no pensamento ocidental, aos
gêneros literários.
Para
Platão, toda manifestação artística é mimética, ou seja, imita a realidade.
Porém, essa imitação é de terceiro grau,visto que o filósofo, embasado em uma
orientação espiritualista, crê que
a verdadeira essência
das coisas, seres e fatos existe num primeiro plano mais elevado
moralmente, que seria o mundo ideal. Num segundo plano,
ocorreria o mundo
dos homens(sócio-histórico), que
apenas imitaria o
primeiro plano. E, por último, o plano artístico, mais afastado,imitaria
o segundo plano, constituindo-se, assim, na imitação da imitação, reproduzindo
somente o que
há de
superficial no mundo
dos homens. A classificação dos gêneros em Platão é triádica
e se realiza sobre o modo enunciativo, ou seja, pauta-se sobre quem apresenta o
universo narrado. Assim sendo, na poesia ditirâmbica impera a voz do poeta; na
tragédia e comédia
predomina a voz
das personagens,
ocultando-se a voz
do autor e na epopeia
ocorre um misto, englobando as vozes do poeta e das suas criações.
Para Aristóteles
(384-322 a.C), a
base de todos os
gêneros, também, fundamenta-se
na imitação. As manifestações
artísticas imitam as ações,
os caracteres e
as paixões dos
homens.
Porém, diferentemente de Platão, Aristóteles não desvaloriza a arte como imitação de
terceira ordem,mas a vê
como algo que
apreende o geral
e o universal presente
nos seres e nos eventos particulares, contribuindo para a
edificação moral do homem. O filósofo
grego classifica os gêneros de acordo
com os fatores
formais e conteudísticos específicos de
cada um. A
tragédia e a epopéia
imitam os homens melhores do que realmente são (de mais elevada psique) a
partir de uma linguagem
nobre, formal, erudita. Já a
comédia, utilizando-se de uma linguagem licenciosa, imita o homem inferior e o risível
da condição humana.
Notamos que em Aristóteles não
ocorre uma divisão
triádica dos gêneros literários.
Horácio (65
a.C - 8
d.C), teorizador latino,recupera, sobretudo
com sua Ars
Poética, o pensamento de
Aristóteles, influenciando a concepção de gênero imperante na Idade
Média, no Renascimento e no
período Neoclássico. A sua
teoria sobre os gêneros é
normativa, entendendo-os como entidades autônomas e imutáveis. As obras clássicas da
cultura grego-latina (tragédias, comédias, epopeias)
passam a se
constituir em paradigmas a
serem imitados pelos autores. Para
Horácio, segundo
a tradição aristotélica,
há uma hierarquia entre os
gêneros. Os gêneros maiores (epopeia, tragédia) representam um universo em que
transitam personagens de mais elevado estrato social e
os gêneros menores
(comédia, farsa)
veiculam personagens
e situações oriundas
de estratos sociais mais baixos. Para Horácio, a arte devia unir o útil
ao agradável, objetivando ensinar,deleitando.
Em
1690 houve a famosa querela entre os antigos
e os novos, pois muitos teóricos e escritores não aceitavam mais as artes
poéticas baseadas em Horácio, visto que havia toda uma produção artística (o
romance, a tragicomédia, a pastoral
dramática) que não se
encaixava na teorização
tradicional, respaldada em Aristóteles. Sentiu-se naquele momento, que o homem havia mudado e,
com essa
mudança, nasceram outras formas
do artístico que precisavam de uma nova interpretação.
Somente
a partir do século XVI é que o gênero lírico
(poesia) passa a
receber uma teorização específica e aí se retoma a
classificação platônica do ato enunciativo. Na representação dramática não ocorre
a intervenção do autor; na lírica, as reflexões
do poeta se apresentam
diretamente por ele mesmo e, na épica, ocorre um misto, ora falando o autor,
ora as personagens introduzidas por ele.
Em
meados do século XVIII, com o início do Romantismo alemão,
a teorização prescritiva
e normativa passa a
ser questionada em
prol da
liberdade de criação e da
hibridação dos gêneros. O movimento
romântico, triunfante no
século XIX, valoriza a
criatividade individual, a genialidade
do artista e o
transbordar da expressão
interior, incompatíveis com a rigidez clássica (horaciana) que vê na
imitação dos clássicos
o único caminho possível para a arte. Friedrich
Schlegel, romântico alemão, distingue a lírica como uma produção em que
predomina o caráter subjetivo (a vida interior do poeta), a épica como voltada
para o mundo objetivo,
o
exterior, e o
drama seria um
misto entre objetividade e
subjetividade.
No
Romantismo, condena-se a imutabilidade dos gêneros literários, que passam a ser
vistos como produções socioculturais modificáveis
em decorrência das
mudanças históricas que
ocorrem na realidade social. Além
dessas mudanças, há também a
vontade do artista,
que determina de
modo substantivo a mudança
nos gêneros literários.
Dentro
dessa visão histórica da arte, alguns teóricos românticos classificam a lírica
como uma forma que representa o tempo presente; a épica, o passado e no drama
ocorreria uma orientação para o futuro.
Victor
Hugo, escritor francês romântico, faz a apologia da simbiose dos gêneros em seu
famoso prefácio à peça
teatral Cromwell (1827). Nesse prefácio, o poeta observa que a beleza
decorre da síntese dos contrários,
ou seja, do
cômico e do
trágico juntos
na mesma manifestação
artística, surgindo, então, o drama romântico. Essa orientação do Romantismo
pela mistura e
hibridismo dos gêneros é
concebida por uma
visão de mundo libertária que vê o poeta, o
ficcionista, o dramaturgo
como criadores
e não como
imitadores. Essa concepção da
simbiose dos gêneros
será largamente retoma da no século XX, sendo ampliada.
O século
XIX, além do
apogeu do Romantismo, também viu
nascer e firmarem-se as teorias
materialistas (Marxismo, Positivismo,Evolucionismo, Determinismo). Dentro
de uma orientação cientificista,
alguns teóricos do fenômeno
literário passam a explicar os
fatos artísticos como se eles fossem fatos naturais. Brunetire (1849-1906) explica
os gêneros literários a partir de uma ótica
biologizante e evolucionista. Dentro
de uma concepção de
seleção natural dos
mais fortes, haverá gêneros
fortes e gêneros
fracos. Estes últimos seriam
suplantados por aqueles, como, por exemplo, a tragédia clássica substituída
pelo drama e a epopeia,
pelo romance. Brunetire
explica a decadência e o
surgimento de certos gêneros a partir da Biologia, interpretando-os como
organismos vivos cujas mutações independem da vontade dos artistas ou das condições
sociais em que estes últimos estão inseridos.
Despreza, assim, os
fatores históricos (ascensão de
uma nova classe
ao poder, novas necessidades do espectador e do leitor,
mudanças ideológicas) que são causas exógenas ao sistema literário, mas
que determinam sobremaneira
as mudanças dentro do
universo das produções literárias.